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História da Medicina: Sistema Cardiovascular, sua descoberta e evolução do seu conhecimento

Sistema Cardiovascular
Escrito por Guilherme Pompeo
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Nesse tópico, vamos abordar a descoberta do sistema cardiovascular e a evolução sobre o que sabemos a seu respeito.

Não costumamos pensar em de onde vieram todos os conhecimentos que temos hoje, não é mesmo? Tudo acaba se tornando tão banal e básico, já que temos a realidade em que vivemos tão entranhada em nós mesmos. Mas já parou para pensar como é impressionante a descoberta de cada detalhe que temos de conhecimento na vida de hoje?

E não é diferente na Medicina! Quantos conhecimentos atuais que são básicos para nós, não foram uma enorme revolução ao serem descobertos? Teríamos inúmeros exemplos…

UMA PEQUENA CONTEXTUALIZADA:

O jornalista científico Robert Adler escreveu: “Hoje, as noções básicas de como o sangue circula pelo corpo parecem triviais…

As crianças do ensino fundamental aprendem que o coração bombeia sangue rico em oxigênio pelo corpo através das artérias, que as veias devolvem sangue pobre em oxigênio ao coração, e os minúsculos capilares ligam as melhores artérias e veias.

No entanto… o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos permaneceu um profundo mistérios desde os tempos antigos até o primeiro quarto do século XVII.”.

Portanto, esse trecho do que o jornalista escreve aborda exatamente o que comentei no início do nosso artigo. O conhecimento sobre o sistema cardiovascular parece bobo nos dias de hoje, no entanto permanecemos séculos sem saber descrevê-lo completa e corretamente.

O conhecimento da anátomofisiologia do sistema cardiovascular progride desde o quarto milênio. No Egito antigo (3500 a.C.), acreditava-se que um conjunto de canais se conectava ao coração, transportando ar, urina, sangue e a alma.

Mil anos depois, na escola médica de Cós (Grécia), foi estabelecido o coração como o centro do sistema cardiovascular, e daí em diante muitas evoluções sobre o conhecimento foram ocorrendo.

E QUEM FOI O PRIMEIRO INDIVÍDUO A DESCREVER CORRETAMENTE O SISTEMA CARDIOVASCULAR?

O médico inglês William Harvey foi o primeiro a descrever de forma correta, e em detalhes, a circulação do sangue pelo corpo.

Em sua obra de 1628, De motu cordis (sendo seu título completo em inglês: On the Motion of the Heart and Blood in Animals), Harvey configurou a rota correta do sangue por meio de estudos realizados com animais vivos, nos quais ele “pinçava” diversos vasos sanguíneos próximos ao coração e observar as direções de fluxo.

Além disso, observou, ao aplicar pressão nas veias próximas à pele dos seres humanos, o fluxo sanguíneo através da visualização do edema, em conjunto com as regiões do membro que ficaram congestionadas ou pálidas.

Em contraste com diversos médicos que existiram antes dele, que conjeturavam que o fígado era responsável pela produção do sangue, e que este era continuamente absorvido pelo corpo, Harvey mostrou que o sangue era constantemente “reciclado”.

Outra contribuição do médico inglês foi ter percebido que as válvulas (ou valvas) existentes no sistema venoso, descobertas por seu professor Hieronymus Fabricius, facilitavam o fluxo sanguíneo unilateral no sentido do coração.

Inclusive, em nossa plataforma, temos uma videoaula perfeita para te introduzir ao assunto das valvas!

William rastreou o sangue que fluía até vasos cada vez menores. No entanto, como não tinha em mãos um microscópio, ele só especulava que existiam conexões (os capilares) entre as artérias e as veias.

Alguns anos depois de sua morte, o médico italiano Marcello Malpighi usou um microscópio para observar os minúsculos capilares que forneciam a tal conexão imaginada por Harvey.

LINHA DO TEMPO ANTERIOR A HARVEY:

Vários trabalhos relacionados à circulação do sangue são anteriores a Harvey. Um exemplo, o médico grego Praxágoras (nascido na mesma cidade do famoso Hipócrates – inclusive foi, durante um período, líder da escola Hipocriática) discutiu a existência de artérias e veias, mas sugeria que as primeiras faziam o transporte de ar.

Em 1242, o médico árabe muçulmano Ibn al-Nafis elucidou a circulação sanguínea entre o coração e os pulmões.

Vamos fazer uma pequena linha do tempo para termos alguns dos marcos mais importantes sobre o conhecimento do sistema cardiovascular:

– Egito antigo (1500 a.C.): o coração era visto como um órgão central de um sistema de canais distribuídos por todo o corpo, responsável pelo transporte de sangue, fezes, sêmen, espíritos malignos e beneginos, e até mesmo a alma.

Já que os egípcios não realizavam autópsias rotineiramente, e que a dissecção não era utilizada como uma forma de aprendizagem médica, não conseguiram avançar muito no conhecimento anátomofisiológico do sistema cardiovascular.

Por outro lado, foram os primeiros a associar o batimento cardíaco com o pulso periférico, além de estabelecer alguma relação do ar com o sistema em questão.

– Grécia – período pré-aristotélico: diversos avanços ocorreram nesse período. Conhecimento anatômico a partir de observações experimentais, diferenciação entre sistema venoso e arterial (Alcmeón).

A escola de Cós (Hipocrática) foi determinante para a evolução no conhecimento sobre o sistema cardiovascular (e em vários conhecimentos da ciência médica também). Pela primeira vez, os detalhes anatômicos do coração foram descritos, eram a ele atribuído o transporte da vida por todo o corpo.

Torna-se bem definida a existência de dois ventrículos, unidos por um septo interventricular.

– Período aristotélico: acreditava-se que o coração era o principal órgão do corpo humano, a sede da alma. Descreveu a presença de vasos comunicando ambos os ventrículos ao pulmão, que transportava ar ao coração.

Teve a oportunidade de dissecar diversos animais para o estudo do sistema cardiovascular, mas não humanos.

Praxagoras de Cós (340 a.C.) avançou um pouco no conhecimento anatômico, tentando diferenciar artérias e veias e os chamando de vasos sanguíneos (flebes).

– Período da Alexandria: o conhecimento anatômico do sistema cardiovascular mais amplo ocorreu com as obras de Herófilo da Calcedônia (3250255 a.C.) e Erasístrato de Quios (310-250 a.C.), da escola de Alexandria, no Egito. As dissecções do corpo humano passaram a ser realizadas de forma mais rotineira.

A principal contribuição de Herófilo estava associada com a diferenciação da espessura das artérias em relação às veias. Além disso, reconheceu que os nervos se originavam no cérebro e na medula espinal, e não no coração, e negou a participação do coração no processo de respiração. Incluiu os átrios como parte da anatomia do coração.

Erasístrato reconheceu a atividade do coração como uma bomba impulsora que contrai devido à sua força intrínseca.

E assim foi ocorrendo cronologicamente diversos períodos que contribuíram de pouquinho em pouquinho para a construção do conhecimento do sistema cardiovascular:

  • período romano (com Galeno foi demonstrado que as artérias continham sangue, e não ar;
  • reconheceu que o ventrículo esquerdo era mais hipertrofiado que o direito);
  • nos períodos medieval e islâmico não houve muito avanço quanto ao saber dessa área (as dissecções eram raras no primeiro e proibidas no segundo);
  • período europeu (período longo em que as dissecções voltaram à tona e se tornaram cada vez mais frequentes, com retorno do conhecimento anatômico, perdido alguns períodos atrás – Ex.: Leonardo da Vinci atribuiu função aos átrios, alegando que os mesmos se contraiam quando os ventrículos dilatavam;
  • enfatizou que o coração é um músculo, e não um lugar de espíritos ou ar; forneceu uma imagem detalhada do aparato mitral).

No século XVII, com Harvey, começamos a ter melhor noção, de forma completa, de como é a anatomia e como funciona o sistema cardiovascular, de fato (bem semelhante ao que conhecemos hoje).

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Guilherme Pompeo

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