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História da Medicina: a Doença de Alzheimer

Doença de Alzheimer
Escrito por Guilherme Pompeo
4.4
(8)

A Doença de Alzheimer é uma das causas mais comuns de demência (responsável por cerca de 60-80% dos casos), sendo o segundo tipo mais comum, tendo como característica um acometimento crônico, progressivo e degenerativo. É uma causa muito importante de morbimortalidade, influenciando diretamente na qualidade de vida do paciente acometido e também de todo núcleo familiar.

Estima-se que existam no mundo cerca de 35,6 milhões de pessoas acometidas pela doença. Só no Brasil, aproximadamente 1,2 milhão de casos.

Tudo bem! Essa foi apenas uma pequena introdução sobre o tema, mas meu intuito nesse artigo não é abordar os sinais/sintomas dessa patologia (até porque vocês já a conhecem, não é mesmo) nem sua fisiopatologia, mas sim seu contexto histórico. Vamos lá!

Antes de começar, vou deixar aqui duas sugestões de videoaulas bem completas: uma sobre a Doença de Alzheimer e a outra sobre Demências no geral.

UMA CURIOSIDADE: ALZHEIMER E O EX-PRESIDENTE AMERICANO

Para termos noção que esta é uma patologia que não “respeita” classe social, raça, gênero ou qualquer outra classificação (talvez, no máximo, a idade…

Embora haja casos de Alzheimer precoce em jovens), em 1994, o ex-presidente dos Estados Unidos (EUA) Ronald Reagan escreveu: “Recentemente me disseram que sou um dos milhões de americanos que sofrerão da doença de Alzheimer … Agora começo a jornada que me levará ao acaso de minha vida.”

Um ano depois dessa declaração, Reagan se encontrava em um restaurante e os clientes do local, percebendo sua presença, iniciaram uma salva de palmas para homenageá-lo. No entanto, na ocasião o ex-presidente já não sabia por que o aplaudiam e que ele já havia sido presidente.

UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA DOENÇA DE ALZHEIMER:

Embora a doença só tenha sido “descoberta” no início do século XX, há diversos relatos sobre a ocorrência desse acometimento muito antes de disso.

Por exemplo, há 3.000 a.C., no Egito, está registrado um dos mais precoces casos de “esquecimento” crônico em população idosa, referindo-se a uma suposta forma de doença de Alzheimer, que acometeu o príncipe Ptah-hotep (na época, representava um Deus da mitologia egípcia, considerado o primeiro deus).

Já no período romano, entre 54 a 68 d.C., durante o governo de Nero, uma paciente chamada Lavínia, esposa de Cornélio e mãe de Perseu, evoluiu com um quadro de demência extremamente avançada, apresentando delírios e alucinações. Muitos acreditam que a patologia apresentada por Lavínia se tratava de uma forma grave e avançada da Doença de Alzheimer.

Entre 130-200 d.C., um médico nascido na Sicília (sul da Itália), posteriormente vivendo em Roma, conhecido como Galeno de Pérgamo, descreveu sintomas de esquecimento crônico, encontrado principalmente em população idosa.

Em 1.383 d.C, em território inglês, há relatos da existência de um teste verbal utilizado para avaliar o esquecimento crônico da população idosa. O teste consistia nas seguintes perguntas:

  1. Em que cidade você mora agora?
  2. Quantos cônjuges você teve?
  3. Quantos dias existem em uma semana?
  4. Quantos shillings têm em 40 penny? (Você se perguntou se seria capaz de acertar essa pergunta? É! Eu também! Como curiosidade, “shilling” é uma antiga moeda inglesa)
  5. Você prefere 20 moedas de prata ou moedas de 40 penny?

Esse até faz com que a gente lembre de alguns testes de triagem para demência existentes nos dias atuais, não é mesmo?

Seguindo na nossa contextualização histórica, nessa mesma época, em 1.378 d.C., um caso muito discutido foi o de Emma Beeston, habitante do reino de Lynn em Norfolk (Inglaterra), que já se encontrava idosa e se tornou “insana” e senil.

Uma investigação foi realizada na época e determinou-se que a paciente havia iniciado esse processo 4 anos antes. Na época da investigação, ela já se encontrava totalmente desorientada no tempo e no espaço e alheia a si própria. Esse é mais um caso que, historicamente, acredita-se tratar de doença de Alzheimer.

DE ONDE SURGIU O TERMO DEMÊNCIA?

Entre os anos 1745 e 1826, Philippe Pinel, médico e autor de um livro de psiquiatria, na França, cunhou o termo demência. Pinel era diretor do manicômio de Bicêtre, nas proximidades de Pais.

Jean Etienne Esquirol (1772-1840) descreveu como “demência” como uma doença cerebral caracterizada por perda dos sentidos, inteligência e interesse.

No final do século XIX, em território alemão, Emil Kraepelin descreve o termo demência precoce.

A palavra demência significada qualquer desordem psicológica, associada a alguma doença cerebral crônica. Isso até o dia 25 de novembro de 1901, quando foi atendida a Sra. August Deter, de 51 anos no Hospital de Lunáticos e Epilépticos de Frankfurt (o que mudaria o rumo de toda essa história).

A paciente foi atendida pelo Dr. Nitche, assistente do Dr. Alzheimer.

O CASO DE AUGUST DETER:

Naquela ocasião, o marido de August Deter relatou aos médicos que a sua esposa sempre foi uma mulher saudável, sem nenhuma doença conhecida, e tinha como marcas da sua personalidade ser educada e tímida.

No entanto, nos últimos 6 meses a paciente havia apresentado uma crise de ciúmes súbita, injustificada, seguida de progressiva perda de memória. Como se tratava de um caso incomum para a época, até o diretor do hospital, Emil Sioli, foi comunicado.

No primeiro dia após a admissão, o Dr. Alois Alzheimer foi visitar a paciente, e assim se sucedeu nos outros 4 dias consecutivos. Em 26 de novembro, ao visitá-la, a mulher estava sentada na cama, com expressão de desamparo. Soube responder seu primeiro nome, mas não recordou o do marido e não sabia se era casada ou não.

Encontrava-se totalmente desorientada no tempo e no espaço, trocava o nome de espinafre por couve-flor, não sabia escrever seu próprio nome. Nas visitas seguintes, a paciente desconhecia o médico. Em outras, August berrava alegando que o médico desejava abri-la ao meio.

Alzheimer acompanhou o caso da paciente até 1903, quando recebeu o convite de Emil Kraepelin (psiquiatra alemão – conhecido como criador da psiquiatria moderna e genética psiquiátrica) para trabalhar na Clínica de Psiquiatria Real, em Munique. Evolutivamente, a doente começou a adotar comportamento hostil e ansioso, deambulando com as cobertas pelos corredores do hospital.

Em 11 de novembro de 1904, adquiriu posição fetal, incontinência urinária e mutismo. Um ano depois, sua clínica continuava a deteriorar, já com úlceras de pressão e infecções secundárias. Em 1906, no dia 8 de abril, a paciente evoluiu a óbito, e encontrava-se em fase muito avançada de demência.

Foi submetida à autópsia, que tinha relato de hidrocefalia moderada, atrofia cerebral, arteriosclerose dos pequenos vasos cerebrais e pneumonia bilateral dos lobos inferiores, além de nefrite. O cérebro da paciente foi enviado, em conjunto com seu prontuário, ao Dr. Alzheimer. O tecido cerebral demonstrava placas senis e degeneração neurofibrilar (ainda não era conhecida até então).

AS APRESENTAÇÕES DE ALOIS ALZHEIMER:

Em novembro do ano de falecimento de August Deter, Dr. Alzheimer apresentou o caso anatomoclínico no Encontro da Sociedade Alemã de Alienistas do Sudoeste sob o título de “Uma estranha doença do córtex cerebral”. Em 1910, Alzheimer descreveu um segundo paciente com o mesmo quadro clínico.

Em julho de 1910, Emil Kraepelin (como dito anteriormente, considerado fundado da psiquiatria moderna), convencido que estava diante de uma nova doença, introduziu o epônimo doença de Alzheimer para este tipo de acometimento, na oitava edição do seu tratado de psiquiatria lançado naquele ano.

CONSOLIDAÇÃO DA DOENÇA DE ALZHEIMER:

Em 1976, o neurologista Robert Katzman publica no editorial da revista Arquives of Neurology não haver distinção clínica e patológica entre a doença de Alzheimer (DA) e a antiga demência senil. Com isso, o número de casos de DA aumentou absurdamente, sendo estimados em 1.200.000 casos nos EUA entre as décadas de 50 e 60.

Em 1984, McKhann e outros autores publicaram na revista Neurology os critérios diagnósticos para DA (na época, incluíam início insidioso e prejuízo progressivo da memória além de, pelo menos, outra função cognitiva).

No ano de 2010, Bruno Dubois e colaboradores publicaram na The Lancet Neurology uma revisão da definição de DA. Com avanços no conhecimento da patologia e com surgimento de novos biomarcadores confiáveis de DA, o desenvolvimento de novos critérios diagnósticos vem sendo estimulado.

As pesquisas caminham no sentido da utilização de biomarcadores em conjunto com neuroimagem, e exame de proteínas específicas encontradas no líquor. Acredita-se que mesmo 20 anos antes do desenvolvimento da doença já poderíamos encontrar esses biomarcadores circulando, o que possibilitaria avanços e planejamento no tratamento e diagnóstico precoce da doença.

UMA BREVE BIOGRAFIA SOBRE ALOIS ALZHEIMER:

Seu nome inicial era Aloysius, filho de um tabelião real Eduard Alzheimer com sua segunda esposa Theresia. Nasceu na madrugada de uma terça feira em 14 de Junho de 1864, dentro de casa, na Bavária (sul da Alemanha), na pequena cidade chamada Markbreit nas proximidades de Würzburg (como curiosidade, sua casa é atração turística atualmente, tornando-se um pequeno museu e centro de convenções desde 1995).

Alois, como ficou conhecido posteriormente, teve dois irmãos, Karl e Johana. Aos 10 anos de idade foi enviado pelos pais a Ascheffenburg, onde iniciou sua educação secundária, formando-se em 1883 com grandes resultados. Em seu diploma, na época, foi descrito “Conhecimento superior em ciências naturais”.

Embasado nos seus conceitos familiares e com grande preocupação social, Alois decide estudar medicina (lembrando que em sua família não havia médicos). No outono de 1883, ingressa na Universidade de Berlim para iniciar o curso de medicina. No ano de 1884, transfere-se para a Universidade de Würzburg, tornando-se íntimo do uso do microscópio e da histologia.

Continuou sua faculdade (1886-1887) em Tübigen, cidade universitária próxima a Stuttgart, local onde apresentaria o caso que o deixaria famoso para toda a eternidade. Em maio de 1888 se forma médico na Julius-Maximilians – Universität, em Würzburg.

Em dezembro daquele ano ele se candidata a uma vaga de médico interno no Asilo Municipal para Doentes Mentais (também conhecido como Hospital Municipal de Lunáticos e Epilépticos), sob direção de Emil Sioli. O diretor não hesita em sua contratação, baseado no excelente curriculum do jovem médico.

Foi nesse local que Alzheimer desperta o interesse pela neuropatologia e se torna amigo de Sioli. Depois de um tempo, Franz Nissl se integra ao corpo clínico do hospital. Esses três proporcionam pesquisas de muita qualidade para época e essa parceria se torna extremamente produtiva.

Alzheimer era um pesquisador muito dedicado, detalhista e cuidadoso, sendo reconhecido por todos por sua habilidade em descrever os achados no microscópio, além de se destacar por seu alto grau de humanismo e competência. Fez história na medicina e estudou diversos assuntos.

Veio a falecer em 19 de dezembro de 1915, aos 51 anos, na atual Polônia, por insuficiência cardíaca. Foi enterrado ao lado de sua esposa no cemitério de Frankfurt.

FAMOSOS COM A DOENÇA DE ALZHEIMER:

Como curiosidade, algumas personalidades que tiveram a doença de Alzheimer:

– Winston Churchill (1874-1965);

– Raymon Davis Jr (Nobel de Física em 2002);

– Rainha da Holanda, Juliana (1909-2004);

– Ronald Reagan (1911-2004)

Estude mais sobre a Doença de Alzheimer com um Caso Clínico do Jaleko!

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Guilherme Pompeo

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